3.8.09

Elevado, tudo olha, arrebatando os movimentos caprinares de seu rebanho. Bebera diariamente de suas mamas e sempre retribuíra com alguma lassidão meiga. Insaciado, projeta para´Cima sua vista decadina. Já passadas três dezenas e muito nada mudou. Ovelhas, cabras, raparigas, rapazotes, sebos e livros; seu silêncio langüidoscente. Erguendo o totem, vai mendicando forças não-suas. Vai escorrendo toda materialidade do invólucro insolente. Às vezes, goza por tanto exaspero, entre Sua Vontade e a incontida vontade - que outros lho ensinaram apática - do corpo. Uma sob a outra raspam o mais sublime pavor, de erguer peso languinógeno. Erguido, esporra em seu calção. Admira a verticalidade que, apontada riste ao alto frisa absoluta elevação, enquanto o esporro, frisa em seu corpo absoluto decline esfriante. Não mais repudia essas artes do espíritocorpóreo. Por isto, aos poucos, mama de seu rebanho, eles próprios espíritoscorporescos, que indisciplinados, deixam-se arredios numa fornicação lenta e exagerada. Ele, ama tudo o que é viço. Escorre ao gramado. Tateia as linhas do panorama. Sente-se panóptico. Tudo Vê: tudovisto. Distingue as ordens: do absoluto, regime métrico do vértice; do amplo, regime métrico do horizonte. Lembra-se da geografia de vinte séculos futuros: longitudinalidade para o primeiro e latitudinalidade para o segundo. O primeiro é Dele e o segundo deles são. Mediando a geometria. Calcula o prospecto de sua arte. Coça o sacrosaco que, engilhado e frio, pinica retinentemente sua baixaria. Exala, pensa no dito vindo do norte, dos homens ilhotas. Diziam estes duma alma feita de sopro, ar, levidão: pneuma. O etéreo era de causa geológica. Terra entranha sentidos nus. Certamente estranha esta agonia pagã. Traça, então, uma linha invisível entre o xy de sua visão. A diferença destes não cabia ali, naquela nervura de lavoura. Interrompe.
Já se atera excessivo ao não seu. Ergue-se ante ao eixo e desce o cimo. Trôpego e leso.
                                      suas pernas – tortas e manchadas de pregas.
Um cão: assim pensam  as coxas – virgens e embrutecidas pela gravidade.
                                      seus pés – lisurósos e cheios bocas.
Desnecessária forma carnosa que limita - sente. Ido à inclinação, à velocidade, ao silêncio, ao irretível, ao jogo e à queda. Uma perna ante a outra desloca o vetor. Pulmões inflamados. Flanco rapino. Estrela do amanhã. Quase voa. Quase...

24.7.09

lembranças de um derivador.

Paridura não importa. JÁ feito carnoso, material insuficiente. Nervoura, rompe a membrana do bloco. Líquidescido irradiado espaço absoluto. Invadidante do poro geológico, mastigato. Andarálho diaàdia: cântico silítico. Indolante, corpogeme de fomerrante e securidosa. Prédiolongos escorrescentes minha vistamargassa. Arenitoso os pés descalços mastiganham. Rebentálos radiculósas asfaltinas: citatílentas. Êrrarrorragia. Entranhoso deviresendo.

16.7.09

É outra coisa. A amizade. Por que se é amigo de alguém? Para mim, é uma questão de percepção. É o fato de... Não o fato de ter idéias em comum. O que quer dizer "ter coisas em comum com alguém"? Vou dizer banalidades, mas é se entender sem precisar explicar. Não é a partir de idéias em comum, mas de uma linguagem em comum, ou de uma pré-linguagem em comum. Há pessoas sobre as quais posso afirmar que não entendo nada do que dizem, mesmo coisas simples como: "Passe-me o sal". Não consigo entender. E há pessoas que me falam de um assunto totalmente abstrato, sobre o qual posso não concordar, mas entendo tudo o que dizem. Quer dizer que tenho algo a dizer-lhes e elas a mim. E não é pela comunhão de idéias. Há um mistério aí. Há uma base indeterminada... É verdade que há um grande mistério no fato de se ter algo a dizer a alguém, de se entender mesmo sem comunhão de idéias, sem que se precise estar sempre voltando ao assunto. Tenho uma hipótese: cada um de nós está apto a entender um determinado tipo de charme. Ninguém consegue entender todos os tipos ao mesmo tempo. Há uma percepção do charme. Quando falo de charme não quero supor absolutamente nada de homossexualidade dentro da amizade. Nada disso. Mas um gesto, um pensamento de alguém, mesmo antes que este seja significante, um pudor de alguém são fontes de charme que têm tanto a ver com a vida, que vão até as raízes vitais que é assim que se torna amigo de alguém. Vejamos o exemplo de frases! Há frases que só podem ser ditas se a pessoa que as diz for muito vulgar ou abjeta. Seria preciso pensar em exemplos e não temos tempo. Mas cada um de nós, ao ouvir uma frase deste nível, pensa: "O que acabei de ouvir? Que imundicie é essa?" Não pense que pode soltar uma frase destas e tentar voltar atrás, não dá mais. O contrário também vale para o charme. Há frases insignificantes que têm tanto charme e mostram tanta delicadeza que, imediatamente, você acha que aquela pessoa é sua, não no sentido de propriedade, mas é sua e você espera ser dela. Neste momento nasce a amizade. Há de fato uma questão de percepção. Perceber algo que lhe convém, que ensina, que abre e revela alguma coisa.
*Deleuze, Amizade.

29.6.09

corpografado-fragmentar

...corpo em ladeira sendo corpo inclinado escorre entre os pés, entreo "chapéu" - esse-x-em-jogo - que é avariante/constante/imprevisto/estrangeiro/limite/ilimitado dos pontosmovediços do errante. Corpo parado, estanque, fissurado no corpoalheio, mergulhado em corporeidades que desintegram o eu; compassonovo: a ritmia do movimento segue por outro circuito, na instauraçãodo tempo lento como um tempo que não está hermetizado pelainstantaneidade, pela violência relativa do chronos, pelasseguimentaridades de marcação nas territorialidades (espaço-tempo), otempo é o acontecimento, é o múltiplo, é o que torna o corpo-parado umcorpo intenso e livre, é o que contagia os sentidos, são os sentidosproduzindo temporalidades caleidoscópicas. Corpo pára, estanque,fissurado no corpo alheio, mergulhado em corpos que são polifonias.Parar e se desdobrar na rede dos corpos, os pés marcam o primeiroindício da experiência vibrátil ressoando após descer metros de pedrase clivagens, o corpo frui ante ao movimento imperceptível da vibraçãodos outros móbiles-corporais. Eis por lá: ambulantes, crianças, guardas, pedintes, velhos, negros, libélulas sensuais, cães em ginga, a cidade/indivíduos...desterritorializando-reterritorializando-desterritorializando...tudo que aparentemente é continuum e final. Outro ponto se desloca e ocorpo frui entre a nervura das pulsões e a amálgama decorpos-rítmicos, devir-geológico do/no corpo; estouramterritorialidades, manhã cinza e horizonte indeterminável.

5.3.09

Três lados de chuva.

O que escorre goteja plenamente
um objeto abundante de si
que permeia toda substância
diferente. Coisa penetrante
a qual impregna tudo em
fome, tudo em excesso, tudo
a partir de sua vertigem e
tamanho. Ao abrir-se,
já dentro deste outro, ela
aninha em seus órgãos a
textura da cor, a nervura de sua
distinção, o frêmito da dobra
que a conjura.

Emprenha nesse ente a síndrome
da abundância, que mutila
o essente, o duro, o ressentido ...

Ao contato, nada o é, fora
fluxo, fora corrente, fora
gota náutica que ensurdece
asfaltos e telhas. Ao
contato jorra o impulso
de seu finito beijo,
que no outro sabe-se lá
quantos metros o devora.
Ao contato, sendas abertas
se erguem multíplices
de queda, de fissura.
Ao contado, inteligível
não se enuncia, serão
pernas, abrigo, frio ou
esplendor. Ao contato
regem dez mil movimentos
imprecisos, que decompõem. Ao contato,
imagens ocres arenosas evanescem
em forças escorregadias
e elétricas. Ao contato
o sangue ébrio desatina
(célere).

16.2.09

Paisagem e Cor

Num bar a praça se aninha. Em teu seio morno de gente bruta e brasileira, bebe-se, erra-se, verbaliza-se, pede-se, fuma-se, mija-se, mastiga-se, esgueira-se, mata-se o dia. Num ponto qualquer, casa, rua e varanda. Carlito transita entre-mesas, pura cadência. Passos, cruezas e o pedido decorado no suor salivado. Mais um de trinta outros. Sentado e calmo, relaxo minhas mãos aos pés do cigarro que não escapa por segundos seu corpo da boca minha. Olhos de frente ao verde, aos prédios de certa antiguidade, vai-se olhando... ambiente nunca visto, nunca sentido, nunca amado. Olhar de quarenta dias. Olhar que tenta olhar com seus quarenta dias virgens. Olhar hermético que ziguezagueia pelas linhas das trilhas, das moças, do pedinte diário. Sorvo o liquido. O cansaço vai sendo deslocado gole a gole. Cansaço de tantas linhas. Saudades de tantas linhas. Uma felicidade se alastra. Ainda há vigor para tatear absurdos.

Outro cigarro. A mesa de ferro em seu verde, em sua ferrugem, desvela a pequena tormenta que há entre os outros beberrões e seus cantos, seus deslances, seus tropeços. Era assim numa segunda-feira. Eu estava à espera da impetuosa-percuciente. Ela proliferava: lentidão. Multidão. Delicada e angular. Abria o seu compasso, o seu canto. Todos sentem a tensão e o risco de firmar de ante do peso incansável, de sua tonalidade, de seu ar carregado, de sua tempestade. Esperava uma vez mais a água, desejava que ela perfurasse a moleza dessas coisas sem ardor. Caia aos poucos aos ritos aos desvairos aos gritos. Muitos ignorando, muitos cansados de outra semana consecutiva de cinza e frio, muitos dançarinos viandavam entre seus corredores. Eu, sentado, aplaudia.

3.2.09

Cotidiano

Vem assim, leve e repentino. São passagens, essas passagens de uma rua a outra, de um corpo a outro, de uma violência a outra. A sombra da vertigem interna, do poro, do amor, da tensão, do contínuo nascimento distorcido, daquilo que não se é mais... é sendo. As bocas erigirem algumas centenas de imagens, um dia inteiro de imagens bucais... Criar-verbo pelo urro, pelo tapa, pelo estalar de ossos, ponto entre saliva e a mão bailarina. O que é leve e repentino: tantos outros amalgamados no cotidiano do dia diferente. Uma rua inclinada e a coreografia dos passos graves/leves, sobe/desce, arrasta/ergue, peso/leveza. Do peitoral, o observador casto ruminava os passos alheios, via de boca aberta, em sua digestão repetida dos fragmentos alheios nunca pertencidos, das tantas esquinas angulosas; nada muito interessante ou rítmico. Ele cansa com muita facilidade e cospe. Esfrega os olhos e baba um pouco, o contorno de si, deforma noutro lapso de observação. Mãos calosas e deselegantes, amareladas e sujas.

Surgia do seu íntimo um prazer muito próprio, muito usual que só de se encontrar se suporta. Mais de anos passados, e nada mais se podia fazer com aquelas mãos que não fosse fruto de aspereza e simetria náutica: suas linhas precisas e desgastadas abriam seu corpo como mapa uniforme e vagabundo. Ao sobrepor sua palma entre tantas pernas a baba cai. Todo dia ele sonda aqueles traços, obscenamente perscruta sua falta de harmonia, todo dia sai de mim para narrar outro ângulo alternante, todo dia se descobre lesado numa maravilha que não possui dono, todo dia senta em seu lugar, todo dia pára o pulso e sangra, tempestade, todo dia não faz diferença alguma. Emparvecido levanta-se