29.6.09
corpografado-fragmentar
5.3.09
Três lados de chuva.
um objeto abundante de si
que permeia toda substância
diferente. Coisa penetrante
a qual impregna tudo em
fome, tudo em excesso, tudo
a partir de sua vertigem e
tamanho. Ao abrir-se,
já dentro deste outro, ela
aninha em seus órgãos a
textura da cor, a nervura de sua
distinção, o frêmito da dobra
que a conjura.
Emprenha nesse ente a síndrome
da abundância, que mutila
o essente, o duro, o ressentido ...
Ao contato, nada o é, fora
fluxo, fora corrente, fora
gota náutica que ensurdece
asfaltos e telhas. Ao
contato jorra o impulso
de seu finito beijo,
que no outro sabe-se lá
quantos metros o devora.
Ao contato, sendas abertas
se erguem multíplices
de queda, de fissura.
Ao contado, inteligível
não se enuncia, serão
pernas, abrigo, frio ou
esplendor. Ao contato
regem dez mil movimentos
imprecisos, que decompõem. Ao contato,
imagens ocres arenosas evanescem
em forças escorregadias
e elétricas. Ao contato
o sangue ébrio desatina
(célere).
16.2.09
Paisagem e Cor
Num bar a praça se aninha. Em teu seio morno de gente bruta e brasileira, bebe-se, erra-se, verbaliza-se, pede-se, fuma-se, mija-se, mastiga-se, esgueira-se, mata-se o dia. Num ponto qualquer, casa, rua e varanda. Carlito transita entre-mesas, pura cadência. Passos, cruezas e o pedido decorado no suor salivado. Mais um de trinta outros. Sentado e calmo, relaxo minhas mãos aos pés do cigarro que não escapa por segundos seu corpo da boca minha. Olhos de frente ao verde, aos prédios de certa antiguidade, vai-se olhando... ambiente nunca visto, nunca sentido, nunca amado. Olhar de quarenta dias. Olhar que tenta olhar com seus quarenta dias virgens. Olhar hermético que ziguezagueia pelas linhas das trilhas, das moças, do pedinte diário. Sorvo o liquido. O cansaço vai sendo deslocado gole a gole. Cansaço de tantas linhas. Saudades de tantas linhas. Uma felicidade se alastra. Ainda há vigor para tatear absurdos.
3.2.09
Cotidiano
Surgia do seu íntimo um prazer muito próprio, muito usual que só de se encontrar se suporta. Mais de anos passados, e nada mais se podia fazer com aquelas mãos que não fosse fruto de aspereza e simetria náutica: suas linhas precisas e desgastadas abriam seu corpo como mapa uniforme e vagabundo. Ao sobrepor sua palma entre tantas pernas a baba cai. Todo dia ele sonda aqueles traços, obscenamente perscruta sua falta de harmonia, todo dia sai de mim para narrar outro ângulo alternante, todo dia se descobre lesado numa maravilha que não possui dono, todo dia senta em seu lugar, todo dia pára o pulso e sangra, tempestade, todo dia não faz diferença alguma. Emparvecido levanta-se
2.10.08
Olho
Marca:
Falo... e você está inalcançável, não conseguimos compor rede alguma de palavras que em suas sinuosas significações amarrariam as passagens para se provar... Enrijecíamos em silêncio e pausa verbal. Há quanto tempo esses olhos olhavam? Já havíamos nos chocado, um olhar obstinado sob outro, entrecruzados apreendiam desejo, saíamos da borda para a dança/Não fazemos mais de nosso olhar uma poética do corpo, não precisamos mais mensurar no silêncio, quantas novas marcas foram produzidas a distância infinita, não há anseio pelo olhar que filtra os sabores da pele ou a maciez de um seio. Se fizermos poesia, faremos com vozes, com mãos navegantes, braços e pernas que não sabem quantos caminhos seguir, e seguem.O ritmo como multiplicidade duplica o corpo, produz intensidades, o sorriso-gozo que emerge a cada despertar, a cada nova curvatura cindida na rede. Por isso, não sabemos ao certo o limite entre ser rede e ser dança, ou mesmo quanto de nossa dança é rede, que em balanço cria, recria, dobra, desdobra as tranças da língua, do sexo, do suor, da conversa, do calor de abraço ou do calor de provocação – jogo e sutileza mordida. Fabricamos novas linhas, novos traços, por isso a insistência de se criar outra cartografia, uma geografia que no recorte ou no cortar, sai da gravidade, da linha serial, saímos da culpa, beber da veia-vida que brame seu desatino avassalador, seu riso incontido, desviar do grave para beijar um caos de afetos e perceptos, isso é o próprio deleite que a manhã nos trás transbordados pelo olor de tempos exaustivo e prazerosamente deliciados. E ao olhar, que antes era construído numa intimidade de superfície, desencanta-se pela tensão dos sentidos: vê-se com os pés, beija-se com as mãos, lambe-se com o nariz, devora-se com as orelhas, cheira-se com a boca, ouve-se com as coxas, sentimos/somos rede que dilata e goza.
11.9.08
21.8.08
Linhas
Então se joga um pouco de verbo, cria alguns sinais e vai-se diluindo naquele espaço cheio de cores, cheio de ar e pó. Diz sobre horário e ida, nunca se fala de uma volta certa, nunca se fala como a sua vontade irá desconstruir o cinza da manhã que seus pés enfrentam diariamente... Talvez os pés não pensem. Vai, partir, rudimentarmente se move e não sobra mais nenhum signo daquela presença, resta silêncio e cor.
O sol que de manhã incendeia a tudo-vivo, angularmente irradia entre o copo no chão e o braço, que em inércia deixa-se cair após algum esforço, algum desgaste... Final de ebriedade-manhã. Desperto, reconhece aos poucos as familiaridades do quarto, das partículas sonoras do sonho de ontem... Não existia imagem alguma, ou possibilidade imaginativa do que se era no ontem onírico... Havia a voz que precedia a secura sóbria: "Você...". Levanta-se, bebe-se água quente, nutri-se de luz, alimenta-se pelo café amargo, dobra-se a manhã que é olhada pela elegia dos outros que atravessam a ladeira da rua.
Uma página escrita, um nada entre o branco absoluto da tela e o contorno sólido daquelas palavras sem paixão. O olhar faminto refletia a angustia de não escrever absolutamente nada sem paixão, parecia que ao menos poderia ser entendido dessa forma, que a paixão era o pequeno vício combustível cuja regra de produção era de escamotear até a última tensão de sua energia e paradoxalmente... Seu consumo final se dava na consciente falta de prazer em escrever palavra nos planos riscáveis, de esgotar até o último baque, a tensão febril que inicialmente era o próprio impulso. Mas não era o caso do plano atual, pois a avaliação do escrito ressentia ao diagrama, a incipiência do modelo formal, da rigidez de máquina burocrática. Existia dez modelos, dez fundamentos necessários e universais, gaguejar... Nunca! Deleta-se.
Ainda imóvel, espera mais trinta segundos que seguirão, conta-se aos poucos, e dobra o tempo de trinta para quarenta: q-u-i-n-ze... Mais tempo... Perde-se o tempo na marcação; outro lado: cria-se outro tempo fora da marcação. Cansa-se da brincadeira e volta ao começo: a tela glauca. Volta-se para a dimensão, busca cada sentimento, cada prazer, cada inferno, cada amargura e desenvolve o pequeno rastro daquele espírito. E deixa-o, não o finaliza, não havia necessidade de terminar... pois, desejava que aquilo, criação, fosse propagado por ondas, por deformidades sonoras e uma boca voluptuosa ao pronunciar sua criação... cansa. Levanta-se ruidosamente, dez passos entre a tela e o final do corredor... Passos curtos.
O dia passa.
Pessoas caminham, o asfalto fede e há o conturbado contorno da massa que amontoam suas vozes, seus risos, seus interiores no espaço da avenida, carros andam, motores exalam e há esse caminho que nunca se acaba entre a vida do móbile e o ponto-final, no ponto-final sempre se encontra pequeninos descansos para novos pontos, novas seguimentariedades... Mas caminha-se, na tentativa de subtrair o ruído pela leveza do movimento, intuição de despejar tanta leveza que o ruído não encontraria corpo algum para se chocar... Tudo é mentira. Anda-se no erro duma proposição unilateral, o pequeno fascismo do narciso transeunte, sabe-se também... Que sem o choque, narciso nada seria. Anda-se... Anda-se... Anda... Ponto-de-chegada.
Sabe-se lá quantas mesas e outras pessoas ecoando, jazz. Ela está à distância, ela sabe que há presença, ela olha para o molar expresso. Acende-se um cigarro, de gosto doce, perdido, negligenciando os avisos da próspera vida da escolha asceta. Ela se aproxima e ri, narra algo sobre a comédia daquele lugar, narra à sangue vivo e bebe. Ela levanta e não se despe-de. Três tempos de música percorrem todo o trajeto entre o prazer ostrático ao tédio que se reformula a cada novo elemento inserido no ambiente... Seja a deliciosa violência de – reproduzir Charles Mingus, seja a brisa que carregada de fragrância urbana aflige os narizes mais delicados, seja o tique constante dos apreciadores os quais num pequeno gozar estimulam os seus dedos em toque ritmado no copo, mesa, mãos, braço, perna, caneta, ar... Seja o exercício de imiscuir-se em cada detalhe, em cada repente dos olhos, em cada vibração vocal... Certamente o tédio era maior, resumo: grande cansaço de presentificar-se. Corta-se para a rua, corta-se para o movimento, anti-tédio, entrega-se aos sinais luzidios que se somam a cada metro. Ela estava lá.
Na chuva percebe-se claramente a desertificação dos corpos, não há muitos presentes os quais de bom grado vagueiam pelo concreto transbordante. Ao contrário do tempo anterior e da massa que pela tarde entupia todas as vidas de passagem, as ruas desertas da noite e da chuva escorrem em eco os pequenos sons que prosperamente se ampliam e se calam... O murmúrio gelado da chuva produz outro ritmo na noite, a cada pingo somado aos passos, aos carros, as bocas sedentas, aos outros encolhidos, a chuva canta e os outros pontos evidenciam a sua cadência, por isso que em cada novo trajeto entre vento-chuva-receptor há uma contínua metamorfose das sensações e da dança viva que se espraia pelos espaços... Os seres que observam da janela reproduz o reflexo interior existente em cada intimidade de janela, também são poucos os observadores... Entra-se em outra rua, tantas quadras já passaram e o movimento muda em cada bloco, há blocos de carros não-segmentados, vezes há bloco de pessoas encruzamento, vezes há apenas buracos e o negro absoluto da noite, vezes becos e portas abertas, ladeira e lar.
Mapeamento:
Deleuze, em seu conjunto de entrevistas nos conta algo sobre o recurso da terceira pessoa que Foucault em Raymond Roussel utilizou para expressar, algo do incômodo ou da sensação de desencontro que nos é impresso quando lemos um ‘texto’ bárbaro, quando algum saber é informado, mas que relutamos no domínio de assimilar/captar a curvatura das informações apresentadas. O saber ou a escrita nos diz algo, mas ela também é um limite circunscrito: no leitor, que lê e recorta suas linhas de interpretação - reduto ''em geral'' subterfugiado ao discurso, que no texto empreende uma moldagem epistêmica ou um certo estilo que dá corpo as linhas e palavras - em geral, o discurso é prenhe de uma suposta ''verdade-verdadeira''. Lembram-se do sintagma?! Forma-Conteúdo?! ...
Assim ele explica:
"E depois há o privilégio do ‘se’, em Foucault como em Blanchot: a terceira pessoa, é ela que deve analisar [você, leitor, invade o texto, pois o texto liga-se a você como analisando ou mesmo como ouvinte do riso-metal disparado por Foucault]. Fala-se, vive-se, morre-se. Sim, existem sujeitos: são os grãos dançantes na poeira do visível, e lugares móveis num murmúrio anônimo. O sujeito é sempre uma derivada. Ele nasce e se esvai na espessura do que se diz, do que se vê".
E é exatamente este final, este risco... Que rubrico ao insistir na terceira pessoa, ele é pessoal, quero encarnar o leitor na impessoalidade da personagem, pois pela impessoalidade levo à pessoalidade daquele que lê. Então, podemos ser aquele/aquela que acorda e retruca com seu sorriso de cotidiano, mas também podemos ser aquela/aquele que acorda atordoa e brinca com seu corpo o tempo que delira.
É isso... uma nota.
